João Bénard da COSTA, 'Prof. Delfim Santos'


Já com este número nas máquinas, fomos surpreendidos pela notícia da morte do Prof. Delfim Santos, ocorrida prematura e inesperadamente, a 25 de Setembro passado.

Com Delfim Santos desaparece o último Professor da Filosofia da Universidade portuguesa, o último duma plêiade de homens a que a palavra Mestre se pode aplicar inteiramente, e da qual, por muito diversas que fossem as orientações respetivas - mais próximo de nós Vieira de Almeida, Joaquim de Carvalho e Edmundo Corvelo foram, como ele foi, as figuras marcantes. Embora, como observava em nota recente o Prof. Barahona Fernandes «a rigidez administrativa, quezílias pessoais e uma certa atmosfera de apagada mesquinhez que reina em tantas coisas da nossa terra» [1] (e de que ele havia de ser vítima até final da sua vida) o tenham afastado da cátedra de Filosofia, que por direito próprio devia ter ocupado, não cabe dúvida que foi nesse campo que se processou o melhor da inestimável contribuição de Delfim Santos à cultura e pensamento portugueses.

Dizendo-o não procuramos diminuir a sua notabilíssima ação no setor da Pedagogia, de que era o único catedrático da Universidade de Lisboa, mas tão-somente salientar uma criação intelectual que trouxe até nós a antropologia existencial e o neopositivismo, pensadores tão diversos quais Kierkegaard e Heidegger, Jaspers e Husserl, Wittgenstein e Carnap, Lavelle e Le Senne, que Delfim Santos foi o primeiro, ou dos primeiros, a comentar e expor em Portugal.

Duma obra na sua maior parte inédita ou fora do mercado salientam-se todos ou quase todos os temas e preocupações dominantes da filosofia europeia dos anos 30 aos anos 60 e foi através dela e da sua imperecível ação docente que muitas gerações de portugueses puderam acompanhar e viver a situação espiritual dos nossos dias. O mesmo tom e a mesma presença se encontram nos seus escritos pedagógicos, fonte e caminho indispensável para quem se queira dedicar a uma análise da problemática educativa no nosso País, e nos quais encontramos o empenhamento, densidade e elegância que foram sempre apanágio duma vida intelectual exemplarmente cumprida.

O TEMPO E O MODO espera poder promover dentro em breve a Delfim Santos a homenagem que a sua obra e personalidade justificam e exigem. Nesta breve nota queríamos apenas registar o imenso vazio deixado pelo seu desaparecimento e o público testemunho duma dívida de gratidão que todos aqueles que em Portugal não desaprenderam de pensar têm em aberto para com o homem e para com o pensador que se chamou Delfim Santos.

J[oão] B[énard] da C[osta]

João Bénard da COSTA, O Tempo e o Modo, 1966.

original


[nota]

[1] - Diário de Lisboa, 28/9/1966.



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