João Bénard da COSTA, 'Delfim Santos: uma pessoa moral'Num breve e luminoso texto publicado em 1943, Delfim Santos afirmou mudarem os métodos e processos educativos, mas permanecer fundamentalmente «o desígnio último da educação: a formação da pessoa moral». Este objetivo humanista – em muitos outros passos, Delfim Santos se referiu a essa finalidade última sob a formulação «tornar o homem humano» – foi incansavelmente prosseguido ao longo de décadas de magistério e intervenção que, acima de tudo, vieram a revestir-se de um caráter primacialmente pedagógico. Sabemos que Delfim Santos – porventura o português filosoficamente mais bem preparado e melhor informado do seu tempo – se veio a orientar sobretudo para a reflexão em torno da história da educação e a pedagogia por motivos "acidentais", se por acidente tomarmos a marginalização de que, na velha Faculdade de Letras, foi vítima, e o acantonou a essas disciplinas afastando-o das cadeiras de Filosofia para que estava particularmente vocacionado. Mas se há muitas razões para lamentar a distorção que a sua carreira sofreu, é também verdade que ele soube retirar dessa inflexão – que não previu nem desejou, mas à qual foi obrigado – a possibilidade de refletir filosoficamente sobre a educação e a pedagogia, confluindo duas vertentes não dissociáveis – o filósofo é sobretudo um pedagogo, como desde os gregos sabemos e como ele se não cansou de recordar – na finalidade última de ensinar a ser livre pela livre formação da personalidade. Os mortais e não os deuses – recordou no lapidar texto Natureza e Espírito – fizeram perder a razão ao homem que «não considere o pensamento como permanente tentativa e jogo em busca do acerto», antes dogmaticamente o considerando como posse exclusiva da verdade. Sempre o seu entendimento da filosofia, como da pedagogia, o levou a considerar qualquer dogmática como «máscara de ignorância» e «ato pouco sério». Com ele reaprendemos, em língua portuguesa, e em tempos de obscuros dogmatismos de sinais opostos, que a «atividade espiritual no seu propósito de conhecimento» é «núcleo de liberdade e decisão» e impede, forçada e forçosamente, qualquer atitude que exclua o erro e a dúvida. Excluí-los do pensamento e da vida é a suprema agressão contra esse mesmo pensamento e essa mesma vida e só pode ser reivindicado por quem não for educado para pensar, ou por quem não pensa para educar. As gerações que foram educadas por Delfim Santos – ou seja que, com ele, aprenderam a interrogar e a interrogar-se – queixaram-se e com razão da escola em que foram educadas e da maior parte dos mestres que as educaram. Hoje damo-nos conta que, apesar dos imensos vícios desse sistema (contra os quais incansavelmente Delfim Santos batalhou), ele permitiu ainda algo de que essas gerações foram, porventura, as últimas a beneficiar: o contacto personalizado com alguns mestres que, como ele, fizeram do seu magistério educativo magistério formativo, e pelo que disseram e pelo que escreveram orientaram decisivamente as personalidades de quem pôde ainda receber essa palavra. Para Delfim Santos, como para o outro grande Mestre que na Faculdade de Letras com ele ainda coexistiu – Vieira de Almeida – a ortodoxia imposta era o «verme roedor do fruto doutrinário». Com Delfim Santos fundou-se em Portugal o último pensamento heterodoxo que representou a possibilidade de livremente reagirmos às certezas frustres em que nos queriam confinar. Graças a ele conheci autores e li livros de que mais ninguém - ou quase mais ninguém - falava em Portugal. Graças a ele pude ter acesso a correntes de pensamento que ele foi o único - ou um dos únicos - a ecoar entre nós. Mas o que sobretudo lhe devo foi a possibilidade dessa heterodoxia e a lição viva e vivida de que pensar é estar em oposição a «todas as verdades estáticas que adormecem um povo». Entre «mercadores do sono», Delfim Santos acordou-me. Isso lhe ficaram muitos a dever para sempre. E nisso – ato de dar à luz, ato de acender a luz – se cumpriu nele a missão essencial do filósofo como missão essencial do educador. João Bénard da Costa, 'Delfim Santos: Uma Pessoa
Moral',
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