Mário Cabral em entrevista
sobre a sua tese «Via Sapientiæ» - Filosofia, Sabedoria e Santidade
Mário Cabral dispensa já
apresentações entre nós e não só. Ainda assim é difícil caracterizá-lo,
mesmo para quem o conhece. Escritor, filósofo, pensador, pintor, cronista,
comentador televisivo, professor, humanista e católico convicto,
Mário Cabral
parece ter saído da era Renascentista tantos são os seus interesses e
talentos, não fora a sua faceta de artista contemporâneo e atual. A
profundidade e seriedade do seu pensamento e da sua espiritualidade
contrasta, aparentemente, com o ar arrojado e liberal do seu temperamento
artístico. Mas Mário encara essas duas facetas apenas como partes
integrantes da sua personalidade, “como uma árvore”, diz, com as raízes
profundamente vincadas na terra, mas com os ramos espraiando-se em busca de
mais horizonte.
A 10 de Maio de 2006 defendeu a sua tese. Uma tese na sua
área, a filosofia, que integra perfeitamente estas duas facetas: a seriedade
e profundidade caraterística do seu pensamento, e a rebeldia e a ousadia do
seu espírito inquieto que o leva sempre a trocar percursos seguros e certos
pelo risco e pela paixão de defender a sua própria visão do mundo, neste
caso da Filosofia, made in Portugal (!), da Sabedoria e da Santidade. O
risco compensou e Mário Cabral
concluiu o seu doutoramento com distinção. A “a União” que tem acompanhado o
seu percurso quis saber mais.
Sandra Bessa (SB): Quando começaste a colaborar com a União já tu estavas de
licença sabática. O tempo voa, amigo! Quanto tempo passou desde então?
Mário Cabral
(MC): Referes-te aos trabalhos de Doutoramento? Desde que comecei até agora
passaram oito anos. É verdade que fiz duas interrupções e que, em bom rigor,
só estive de bolseiro durante quatro. Mas este tipo de investigação preenche
a cabeça duma pessoa por inteiro. Tinha 35 anos quando comecei e tenho agora
43; nota-se mais dito desta maneira.
SB: Mudaste, entretanto?
MC: Oh sim, muitíssimo! Fazer uma tese de Doutoramento em Filosofia pode ser
uma mudança radical de vida. Amadureci tanto!
SB: A propósito, não deve ser fácil fazer uma tese de Doutoramento em
Filosofia… Escreve-se sobre o quê? Inventa-se um sistema filosófico novo?
MC: É curioso que muitas pessoas me perguntam o mesmo. Isto deve estar
relacionado com o facto de continuarmos a relacionar a Filosofia com a busca
do Sentido para a existência. Porém, hoje em dia, ela é mais tida por uma
técnica de bem pensar, vamos dizer uma ginástica mental, em analogia com a
educação física, para o corpo.
SB: Estava a pensar no Ph D americano…
MC: Pois, «Philosophy’s Doctor». Todos os Doutorados anglo-saxónicos são Ph
D… Voltando à tua questão: faz-se uma tese de Filosofia como se faz outra
tese qualquer: escolhe-se um tema ou um autor e trabalha-se analiticamente
ou hermeneuticamente o assunto. Hoje em dia usa-se mais a palavra
«dissertação», de modo a evitar este imbróglio.
SB: Mas, se bem te conheço, fizeste uma tese, à moda antiga!
MC: A minha primeira arguente começou por dizer que estava diante duma tese,
e não duma dissertação, o que há largos anos não lhe acontecia. Gostei, não
há como escondê-lo.
SB: Como é que correu a defesa? Quem te conhece sabia que só poderia correr
bem, apesar dos teus sobressaltos enquanto o pior crítico de ti próprio.
MC: Agradeço esta confiança das pessoas amigas. Porém, eu sabia que levava
uma tese complicada, difícil de ser aceite pela cátedra. Em algumas secções,
o estilo, de tão desusado, poderia ser tomado como provocatório. Assumi
todos os riscos, mas sabia o peso dos riscos que estava a assumir.
SB: Sobre o que é que trata esta tese, então?
MC: O meu ponto de partida é a obra de três pensadores portugueses
contemporâneos…
SB: Existe filosofia portuguesa?
MC: Aí está: logo à partida tinha este velho cavalo de batalha: há ou não há
filosofia portuguesa? Não será melhor falar de pensamento?
SB: Agostinho da Silva é um dos três, sem dúvida… e os outros dois?
MC: Delfim Santos, que foi por onde comecei a estudar; e Teixeira de
Pascoaes, um poeta! Dos três, só Delfim Santos pode ser chamado de filósofo
pelos puristas.
SB: Estou a ver… Uma tese de Filosofia sobre não filósofos!
MC: Pior: uma tese de Filosofia sobre três autores que explicitamente
declaram que a Filosofia deve dar lugar à Sabedoria. Por isso o meu título
é: «Via Sapientiæ: da Filosofia à Santidade».
SB: Um poeta que não quer ser filósofo e que escreve sobre os maiores santos
da Cristandade…
MC: Exato. Os três autores são perentórios ao afirmar que o primeiro
contacto com o mundo não é epistemológico, mas sim afetivo. Opõem-se
frontalmente a todo o tipo de identificação do ser com o pensar. Têm quase
como pecado a transcendência dum sujeito face ao mundo tomado por objeto.
Temem a linguagem geomético-matemática quando esta aniquila a linguagem
espiritual, mais persuasiva do que dedutiva, mais simbólica do que
concetual.
SB: Trocando por miúdos, sr. Doutor…
MC: Desculpa. Há um grande contraste formado entre a razão abstrata e
teórica, ao estilo grego e alemão, e a vontade livre, de tradição cristã,
que Delfim Santos relaciona diretamente com a responsabilidade face ao
Outro que está à minha frente. Só há conhecimento investido na e pela ação.
A nossa filosofia é toda virada para a experiência, para a prática moral e
política, para a ação. Vejo em tudo isto a influência subterrânea do
Cristianismo.
SB: Ou seja, não temos nada a ver com o estilo de pensamento grego e alemão,
é isto? Afinal Agostinho da Silva era contra a nossa entrada na Comunidade
Europeia.
MC: Correto. Talvez seja dos três aquele que tem uma consciência mais aguda
da nossa essência de portugueses, temendo pelo assalto estrangeiro que, de
vez em quando, nos ameaça. E esta nossa doença, insuportável, de acharmos
que tudo o que vem de fora é que é bom, quando temos no sótão tesouros a
criar pó e teias de aranha!
SB: Disseste ainda agora que tínhamos um pensamento prático… quem diria!
MC: Sim, sim! Tem a ver com os Descobrimentos – então e o «Vi claramente
visto» e o «Vejam agora os sábios na Escritura»?! E a nossa diplomacia
sempre foi reconhecida… E fomos grandes especialistas em Aristóteles…
Suspeitamos das grandes abstrações, e ainda bem!
SB: Afirmas que a filosofia portuguesa tem, portanto, uma natureza
predominantemente social e política. Podes desenvolver?
MC: A terceira parte de «Via Sapientiæ» chama-se “A Concretização do Reino”
e é dedicada à política. Filosofias práticas, como são as dos autores que
estudei, preocupam-se verdadeiramente com os destinos da comunidade humana,
pelo que se pode muito bem concluir que, no fundo, o meu trabalho se
enquadra dentro da filosofia social e política. Esta preocupação refere-se
ao sofrimento concreto de alguém com rosto próprio e toca no coração e não
tanto na racionalidade. Visa a paz e a alegria da relação fraterna; por isso
as minhas palavras-chave são: AÇÃO, CORDIALIDADE, PORTUGAL, REALIDADE e
SANTO. O outro interpela-me, está à minha frente, não o posso pôr em dúvida
ou reduzi-lo a uma qualquer indecisão epistemológica; seja ela qual for, a
certeza intelectual é sempre mais fraca do que esta interpelação urgente que
eu sinto no fundo do meu coração e que me faz verdadeiramente homem.
Perdendo, neste agir corajoso, aquilo que, supostamente, os gregos disseram
ser a minha identidade («O homem é um animal racional») acabo por me
encontrar na magnificência remota e, ao mesmo tempo, mais futura do meu ser:
o meu transcender-me.
SB: Isto não é bem aquilo que entendemos por política hoje em dia…
MC: Concordo, mas lamento. A política à séria é uma questão amorosa, diria
Agostinho da Silva, que conhecia muito bem o nosso culto do Espírito-Santo,
ao qual fui buscar a inspiração deste meu subtítulo.
SB: Mas isso não é uma fantasia utópica?
MC: Mesmo que não fosse evidente que a lei verdadeira é a lei do Amor, era
mais inteligente optar por ela, como se se tratasse apenas dum postulado que
leva mais longe. Uma teoria é tanto melhor quanto testada pela evidência
empírica moral e política. Mesmo que possa ser entendida como “ficcional”, é
preferível uma ficção que floresce no Bem efetivo do que uma lei científica
que conduz ao mal efetivo. Nem tudo o que é racional é razoável, tal como
nem tudo o que é possível é desejável. Bem vistas as coisas, reside aqui a
passagem da consciência lógico-dedutiva – a velha dianoia – à noêsis: a
metanoia.
SB: E onde é que entra o santo?
MC: Os três autores que estudei consideram o santo como o ideal de
humanidade. Poderá o filósofo ser santo? Não é preciso que seja, insiste
Agostinho da Silva, precisamente o mesmo autor que é o maior apologeta do
sacrifício.
SB: Como definem o santo e a santidade?
MC: Lembras-te da «Alegoria da Caverna», de Platão? O filósofo é aquele que
se liberta da ignorância e se encaminha, por diversas etapas, até ao “etéreo
céu”, para usar uma metáfora dum poema de Teixeira de Pascoaes. O santo é o
filósofo que desce à caverna para ajudar a libertar os seus irmãos.
SB: Então o filósofo deve transformar-se em santo.
MC: Quantas vezes o filósofo se recusa a descer! É por causa da famosa
soberba de muitos filósofos que estes autores parecem desprezar tanto a
filosofia. Mas interessa perguntar se um filósofo que não percorre a via
sapientiæ, isto é, que não desce do etéreo céu, será, de facto, um filósofo.
Por outras palavras, a filosofia é demasiado importante para ser deixada nas
mãos dos filósofos.
SB: Mas há muitos santos que nunca foram filósofos…
MC: É possível chegar à santidade sem a filosofia; porém, que disciplina,
melhor do que a filosofia, pode destrinçar os falsos saberes da Verdade,
analisando, com aquela cientificidade exigida por Agostinho da Silva, a
linguagem equívoca, o reducionismo das propostas, o perigo das consequências
reais deste ou daquele princípio teórico?
Não é preciso que o filósofo seja santo, embora custe a aceitar que a razão
não se abra ao espírito, que a dianoia (ciência) não dê o salto para a
noêsis (espiritualidade), que o cientista não dê lugar ao sábio. O sábio já
vive um estado de sôphrosynê (Serenidade) muito próximo da contemplação
mística. Teixeira de Pascoaes refere-se quase sempre a este santo estoico
que se consola nas alturas rarefeitas do etéreo céu; mas termina por
compreender que o mártir é o santo por excelência, na medida em que tudo
sacrifica à lei inalienável da compaixão.
SB: O que vais fazer agora com esta tese?
MC: Comecei por referir o que esta tese fez por mim, o que foi incalculável.
Quanto ao resto, veremos… Tinha gosto em ir para um pós-Doutoramento sobre
as questões que ficaram em aberto. Gosto mesmo é do trabalho de
investigação… Veremos… Eu pertenço a uma cultura que se põe alerta aos
sinais dos tempos… Menos importante do que a minha vontade é aquilo que eu
devo fazer. Veremos… Estou atento.
01/07/2006
Entrevista por: Sandra Garcia Bessa
01/04/2009
Por: Irene Maria F. Blayer
VIA SAPIENTAE: DA FILOSOFIA À SANTIDADE, Mário Cabral

Mário Cabral. VIA SAPIENTAE: da Filosofia à Santidade.
Lisboa: Imprensa Nacional -Casa da Moeda, 2009.
É costume lamentar a inexistência da filosofia portuguesa. Quem assim
pensa parte do pressuposto de que existe um modelo bem definido da
filosofia. Esta presunção é, no entanto, incerta. Como é discutível que
a filosofia seja indispensável a uma cultura: grandes culturas não
tiveram filosofia. E, no caso do português é inegável que temos uma
cultura com traços bem definidos.
Nada garante que a filosofia seja o
fim último do conhecimento humano. Na Grécia, os filósofos apontaram
para a necessária transformação da filosofia em sabedoria. A metamorfose
do inquérito teórico pela verdade em prática efetiva de vida orientada
para um fim é evidência na Idade Média. Só a partir da modernidade é que
a filosofia tendeu para o lado daquilo a que hoje chamamos ciência.
Os pensadores portugueses analisados neste livro consideram a
modernidade como uma decadência filosófica. Para eles, a filosofia é
parte da viagem do conhecimento humano e deve dar lugar à sabedoria.
Isto não significa que a filosofia não seja um bem inestimável. A
filosofia é demasiado importante para que fique nas mãos dos filósofos
profissionais, que tendem a transformá-la num tecnicismo especializado
que é oposto da cultura.
Com esta obra pretende-se tornar acessível o discurso filosófico
enquanto ato da cultura: descodificar a linguagem que lhe é própria
tornando-a acessível abrir novas abordagens na apreciação de um domínio
caraterizado muitas vezes pelo hermetismo, onde, ao contrário, se
justifica uma ampla abertura. Ou não fosse o ato cultural, que é a
filosofia, a raiz da cidadania: o espaço em que o Homem afirma a sua
condição humana e se projeta dentro da Comunidade, incluindo a do Saber,
como a Razão do seu futuro.
EXCERTO DA CONCLUSÃO: «A Utilidade da Filosofia», pp.519/520:
«A vida não pode ser apenas isto - isto de factum,
isto de fatum, tragédia que a razão enlouquecida para nós
próprios inventa, à guisa de pesadelo incontornável, castigo sem culpa,
pese embora no profundo do nosso ser permaneça a esperança doutro mundo,
que sentimos merecido. 'Eu vinha para a vida, e deram-me dias', proclama Ruy Belo em verso inolvidável.
Pensar não é apenas raciocinar e viver é muito mais do que pensar e
não podemos definhar, escravos de nós próprios, sem fazermos nada contra
um cancro evidente. Não somos pedras, por mais respeitáveis que as
pedras sejam. Não resistimos sem olhar para o céu estrelado acima de
nós. Mesmo que não houvesse mais do que factum e fatum, a
vontade livre deveria insurgir-se contra tal realidade, desajustada ao
impulso mais radical do humano, que se lança do futuro aberto que
concretiza a memória recôndita de pertença ao sentido absoluto.
A filosofia deve ajudar o espírito a reinventar a alegria e a esperança,
sol aberto duma tarde estival que já conhecemos quando infantes. A
filosofia é um instrumento transitório e não um estado de espírito
permanente [...] Ao contrário do que pode parecer, este livro ainda se
encontra no domínio filosófico, sendo a transitoriedade do seu subtítulo
para levar a sério. No fundo, trata-se nestas páginas do maior elogio
possível à filosofia, salvando-a da manipulação tecnicista à qual tem
sido votada desde que vive encarcerada nas universidades, para benefício
dos poderes instituídos deste mundo. Ela nasceu com ambições maiores
[...]».

Mário T Cabral é natural da
ilha Terceira, Açores (1963), onde mora. Franciscano da Ordem Terceira,
Doutor em Filosofia, poeta, romancista e pintor. O seu último livro -
O Acidente - acaba de ser distinguido com o Prémio John dos
Passos para o melhor romance publicado em Portugal em 2005/2006
(Porto: Campo das Letras). O seu primeiro livro publicado foi de
crónicas - Histórias duma Terra Cristã (1996) - seguido de O
Meu Livro de Receitas (Guimarães: Pedra Formosa, Poesia,
2000) e de O Livro das Configurações (Porto: Campo das Letras,
Romance, 2001); o último é de filosofia e tem por título: Via
Sapientiæ: da Filosofia à Santidade (Lisboa: Imprensa Nacional
Casa da Moeda, 2009). Voltará à poesia em 2010, com Tratados
(Guimarães: Opera Omnia). Está traduzido em espanhol, inglês e
letão. Os desenhos inclusos em Tratados pertencem a Eudemim: O
Regresso ao Belo (Sinestesias) - exposição de 53 desenhos na
Carmina Galeria, Terceira, em 2005. A sua última exposição foi de
arte sacra e teve como título Gratia Plena (Convento de São
Francisco, Lajes do Pico, 2008).
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