Miguel REAL, 'Uma razão aporética' [no centenário de Delfim Santos]


Miguel Real (1953-)

Delfim Santos (1907 -1966) foi o discípulo de Leonardo Coimbra que levou mais longe o seu empenho universitário, tendo frequentado o Círculo de Viena como bolseiro, convivendo com Schlick, assistindo às aulas de N. Hartmann, em Berlim, e de Moore, em Cambridge, sendo um dos primeiros pensadores a trazer para Portugal os estudos neopositivistas lógicos, que, no entanto, fiel ao impulso ontológico do seu mestre do Porto, criticará no relatório de bolseiro à Junta de Educação Nacional, em 1938, intitulado Situação Valorativa do Positivismo. Como Delfim Santos evidencia em Das Regiões da Realidade, pensar a realidade, o conhecimento, o homem, a matéria, a vida, a ciência, a religião, a cultura, só faz sentido se se pensar o homem como um todo. De facto, este texto, Das Regiões da Realidade, escrito em Berlim em 1937 mas só publicado em 1939 na revista Prisma, e o texto Da Filosofia, igualmente escrito em Berlim em 1937 e também só publicado em 1939, mas com nota introdutória desta data, perfazem, em conjunto com a tese de doutoramento de 1940, Conhecimento e Realidade, o ciclo dos grandes textos filosóficos de Delfim Santos, onde se cruzam a influência de Leonardo e a de N. Hartmann, abrindo-se de seguida a fase de publicação de artigos onde se denota um certo pendor existencialista.

Com efeito, desde que regressara da sua primeira estada na Alemanha, em 1937, o termo “região” do conhecimento e da realidade passara a fazer parte constitutiva da terminologia filosófica de Delfim Santos. Logo no seu primeiro grande trabalho filosófico, Situação Valorativa do Positivismo, Delfim Santos enfatiza – o que permanecerá como uma invariante do seu pensamento filosófico – a impossibilidade de um conhecimento absoluto de caráter ontológico ou metafísico: É assim definida, logo no primeiro grande texto filosófico de Delfim Santos, a contradição entre gnosiologia e ontologia que definitivamente marcará o seu pensamento, inclusive a sua tese de doutoramento de 1940, marcando igualmente toda a arquitetónica conceptual de Da Filosofia, dividindo o Ser em esferas ou regiões (matéria; vida; consciência e espírito), erguendo para cada urna destas regiões ônticas uma categoria central (a causalidade na matéria; a finalidade na vida; a intencionalidade na consciência e a liberdade no espírito).

Em 1939, Delfim Santos, em Da Filosofia manifesta ter plena consciência da radical incompletude dos seus ensaios filosóficos e anuncia dois futuros estudos, Do Homem e Da Metafísica, que porventura constituiriam o coroamento do seu pensamento. Sobre aquele, não duvidamos que o seu conteúdo se solidificaria em torno dos seus diversíssimos estudos sobre o existencialismo. De facto, à glória de poder reclamar para si, em conjunto com Abel Salazar, o pioneirismo dos estudos sobre o neopositivismo lógico em Portugal, acresce a glória de poder Delfim Santos reclamar ter sido um dos primeiros filósofos a expor o pensamento existencialista em várias das suas vertentes, de Gabriel Marcel a Jaspers, de Sartre a Heidegger. Suprirá esta sua divulgação do existencialismo a «antropologia filosófica» que anunciou mas nunca escreveu? Como Lourdes Sirgado Ganho afirma (O Essencial sobre Delfim Santos, INCM 2002, p. 55 ss.), o existencialismo, com a tematização do conjunto dos existenciais como símiles de categorias epistemológicas, embora aplicadas à vida humana concreta e emotiva, parece preencher o desiderato filosófico de Delfim Santos. De facto, para além de novidade e de moda europeia, o existencialismo tende a dar corpo a um pensamento como o de Delfim Santos, onde a realidade nouménica não só escapa ao conhecimento como, inclusive, escapa ao domínio causalístico da objetividade da ação humana. Neste sentido, o texto Sentido Existencial da Angústia, de 1952, é bastante elucidativo: Delfim Santos escreve como se partilhasse a teoria heideggeriana e sartriana – que vai explicando –, o que não acontece com o texto Temática Existencial, historiograficamente neutro.

Porém, vista a sua teoria como um todo, evidencia-se fortemente em Delfim Santos a ausência do seu anunciado terceiro livro, Da Metafísica. No artigo “Ideário Contemporâneo”, de 1943, Delfim Santos dá-nos conta da sua perplexidade em definir o «sentido do humano», parecendo, no final, tomar uma posição culturalista (o homem é o que a cultura de uma época dele faz, sendo que esta cultura é a síntese da cultura de todas as épocas passadas) (Obra Completa, I, p. 394), para fechar o último período com um ponto de interrogação sobre o saber que o homem possui de si próprio, seja qual for a época em que viva. Fica o leitor sem resposta e fica o comentador sem possibilidade de interpretar para além da definição de homem como ser livre que de si próprio é autocausador de ação, ou seja, tema que já Leonardo Coimbra expusera em 1912 e 1915 em O Criacionismo.

É em Da Filosofia que encontramos não só uma súmula da sua filosofia, se assim se pode dizer, como é aqui que retira as consequências da teoria das «regiões da realidade» e da incognoscibilidade do ser. O sentido cultural de Da Filosofia encontramo-lo tanto no ceticismo gnosiológico de Delfim Santos quanto na sua permanente incapacidade em dar corpo a uma metafísica anunciada. A palavra essencial de Da Filosofia é aporia: aporia entre conhecer e ser; aporia entre ciência e filosofia; aporia entre idear e realizar; aporia entre razão e emoção; aporia entre verdade e certeza; aporia entre sujeito e coisa. Como o afirma categoricamente Delfim Santos, não se trata de um relativismo ou de um indiferentismo face a diversas Weltanschauungs, mas de assombro, de espanto, de perplexidade face ao leque de antinomias essenciais nunca resolúveis pelo conhecimento filosófico – o coração da filosofia é aporético.

Miguel REAL, Jornal de Letras: 21 nov/4 dez 2007, 36.

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